Da Cabruca à produção irrigada: tradição, tecnologia e o novo mapa do cacau no Brasil.
Floresta, agricultura, genética, irrigação, origem e chocolate: o cacau brasileiro vive uma transformação que conecta sistemas centenários de produção a uma nova agricultura de alta tecnologia.
Do Fruto Amazônico ao Mercado Global
Poucas culturas brasileiras carregam uma relação tão profunda entre território, história, meio ambiente e valor agregado quanto o cacau.
É de uma amêndoa produzida dentro de um fruto tropical que nasce uma cadeia que movimenta agricultura, beneficiamento, moagem, indústria alimentícia, cosméticos, chocolates e comércio internacional.
Mas falar de cacau brasileiro hoje significa falar de realidades muito diferentes.
Existe o cacau produzido sob a sombra da Mata Atlântica no Sul da Bahia.
Existe o cacau amazônico do Pará.
E existe uma nova fronteira tecnológica, onde genética, irrigação, manejo intensivo e agricultura empresarial começam a levar a cultura para ambientes antes pouco associados à cacauicultura.
Da Cabruca ao cacau irrigado, o Brasil está redesenhando o mapa dessa cultura.
314 Mil Toneladas: O Tamanho Atual da Produção Brasileira
Segundo a Produção Agrícola Municipal do IBGE, o Brasil produziu aproximadamente 314,4 mil toneladas de cacau em 2025.
A área colhida foi de aproximadamente 623 mil hectares.
O valor da produção alcançou cerca de R$ 12,95 bilhões.
O Pará aparece atualmente como o maior produtor brasileiro, seguido pela Bahia.
Somente o Pará produziu aproximadamente 153,6 mil toneladas em 2025, cultivadas em cerca de 170,6 mil hectares.
Bahia e Pará, portanto, formam os dois grandes eixos da cacauicultura brasileira.
Mas representam modelos territoriais, históricos e produtivos bastante diferentes.
Pará: O Cacau Retorna à Sua Origem Amazônica
O cacaueiro, Theobroma cacao, tem sua história ligada à América tropical e à região amazônica.
No Pará, a cultura encontrou condições naturais extremamente favoráveis.
O estado consolidou um importante polo produtivo principalmente na região da Transamazônica.
Medicilândia aparece nas estatísticas do IBGE como o principal município produtor de cacau do Pará.
Outros municípios da região, como Uruará, Brasil Novo, Anapu e Altamira, também fazem parte desse território cacaueiro.
É uma cadeia com forte presença de produtores rurais e agricultura familiar, mas que alcançou escala suficiente para colocar o Pará na liderança da produção brasileira.
A Amazônia, portanto, não representa apenas a origem botânica do cacau.
Representa também uma das principais fronteiras atuais de produção.
Bahia: Onde o Cacau se Transformou em Cultura
Se o Pará representa a força crescente da produção amazônica, a Bahia representa a dimensão histórica, econômica e cultural do cacau brasileiro.
Durante décadas, falar em cacau no Brasil significava falar no Sul da Bahia.
Ilhéus tornou-se internacionalmente associado à cultura.
Ao seu redor, municípios como Itabuna, Uruçuca, Una, Canavieiras, Camacan, Itacaré e outras cidades da região construíram sua história econômica em torno das fazendas de cacau.
A cultura influenciou arquitetura, literatura, formação de cidades, patrimônio e relações econômicas.
Mas a importância do cacau baiano vai além da história.
Existe no Sul da Bahia um sistema produtivo que se tornou uma das imagens mais características da cacauicultura brasileira: a Cabruca.
O que é Cacau Cabruca?
Cabruca é um sistema agroflorestal tradicional do Sul da Bahia.
Nesse modelo, o cacau é cultivado sob a sombra de árvores da Mata Atlântica.
Em vez de eliminar completamente a vegetação para implantação da lavoura, parte da estrutura arbórea é mantida e manejada para permitir a produção do cacaueiro.
O resultado é uma paisagem produtiva muito diferente de uma lavoura convencional a pleno sol.
Existe agricultura.
Mas existe também cobertura arbórea, biodiversidade e uma relação particular entre produção e floresta.
A CEPLAC caracteriza a Cabruca como uma marca histórica da cacauicultura baiana, e o sistema ocupa parcela expressiva das áreas tradicionais de cacau do estado.
Isso transformou a Cabruca em algo maior do que uma técnica de cultivo.
Ela passou a representar origem, território e identidade.
Cabruca Não Significa Ausência de Tecnologia
Existe uma interpretação equivocada de que um sistema tradicional necessariamente significa agricultura pouco tecnológica.
Não é assim.
Uma propriedade de cacau Cabruca profissional pode envolver genética selecionada, clonagem, manejo de sombreamento, controle fitossanitário, nutrição, poda, monitoramento de produtividade, colheita seletiva, fermentação e secagem tecnicamente controladas.
O diferencial está na arquitetura do sistema.
O desafio é encontrar equilíbrio entre produtividade, sanidade, qualidade e conservação ambiental.
E isso exige conhecimento.
A Vassoura-de-Bruxa Mudou a História
Não é possível contar a história moderna do cacau baiano sem falar da vassoura-de-bruxa.
A doença provocou uma ruptura profunda na produção do Sul da Bahia e alterou a economia de toda a região.
A recuperação da cacauicultura passou a depender de pesquisa, manejo e desenvolvimento de materiais genéticos com características agronômicas mais adequadas e maior resistência.
Nesse processo, a CEPLAC desempenhou e continua desempenhando papel fundamental na pesquisa brasileira do cacau.
Entre os materiais estudados ou recomendados ao longo desse processo estão clones como:
CCN 51
PS 13.19
PH 16
CEPEC 2002
FA 13
SJ 02
CCN 10
Vencedora 20
A escolha genética, entretanto, não deve ser tratada como receita universal.
Solo, clima, manejo, pressão de doenças e características de cada ambiente interferem no desempenho dos materiais.
No cacau moderno, genética e território precisam ser analisados juntos.
Do Sul da Bahia ao Oeste: Surge Outro Cacau
Enquanto o Sul da Bahia preserva e moderniza sua tradição cacaueira, outra experiência chama atenção.
O cacau começou a avançar em regiões onde sua produção depende de uma lógica completamente diferente.
No Oeste baiano, municípios como Barreiras e Luís Eduardo Magalhães passaram a receber projetos de cacau irrigado e sistemas mais intensivos de cultivo.
Estamos falando de uma paisagem agrícola muito diferente.
Sai parte da lógica do sombreamento tradicional da Mata Atlântica.
Entram irrigação, controle hídrico, genética, fertirrigação, mecanização possível em determinadas operações, monitoramento e agricultura de precisão.
É a mesma espécie.
Mas economicamente estamos diante de outro projeto agrícola.
Cabruca x Cacau Irrigado: Não Existe um Único Modelo
Comparar os dois sistemas apenas para descobrir qual “produz mais” seria simplificar uma questão muito mais complexa.
A Cabruca possui atributos ambientais, históricos e de origem que podem agregar valor ao produto e ao território.
O cacau irrigado busca maior controle do sistema produtivo e potencial de produtividade por área, mas exige investimento, disponibilidade hídrica, energia, tecnologia e gestão.
Um trabalha intensamente com a integração entre floresta e lavoura.
O outro pode trabalhar com uma agricultura mais intensiva em capital e controle agronômico.
São modelos diferentes.
E cada propriedade precisa ser analisada de acordo com sua realidade.
Água Passa a Ser Parte do Valor do Ativo
Quando o cacau entra em sistemas irrigados, a análise da terra muda.
- Não basta analisar solo.
- É preciso analisar água.
- Disponibilidade hídrica.
- Regularidade da fonte.
- Outorga.
- Capacidade de irrigação.
- Energia.
- Infraestrutura.
- Topografia.
- Qualidade da água.
- Custo operacional.
Em uma cultura perene, uma decisão de implantação cria compromissos que permanecerão durante muitos anos.
Por isso, uma propriedade destinada ao cacau irrigado precisa ser analisada como um sistema produtivo completo.
Ter terra não significa necessariamente ter um projeto viável de cacau.
Cacau Não é Chocolate
Entre o fruto colhido na fazenda e uma barra de chocolate existe uma longa transformação.
Depois da colheita, as sementes passam por etapas fundamentais.
- Fermentação.
- Secagem.
- Classificação.
- Torrefação.
- Quebra e retirada da casca.
- Moagem.
A partir daí surgem produtos como massa ou liquor de cacau, manteiga de cacau e cacau em pó.
Esses componentes entram em diferentes formulações industriais.
O chocolate pode ser produzido em diversas categorias e formulações, incluindo chocolates com maior ou menor concentração de cacau, chocolates ao leite, chocolates brancos e produtos de origem ou de características sensoriais específicas.
Quanto melhor a qualidade da amêndoa e do pós-colheita, maiores podem ser as possibilidades de diferenciação.
Do Cacau Commodity ao Chocolate Fino
Entre o fruto colhido na fazenda e uma barra de chocolate existe uma longa transformação.
Depois da colheita, as sementes passam por etapas fundamentais.
- Fermentação.
- Secagem.
- Classificação.
- Torrefação.
- Quebra e retirada da casca.
- Moagem.
A partir daí surgem produtos como massa ou liquor de cacau, manteiga de cacau e cacau em pó.
Esses componentes entram em diferentes formulações industriais.
O chocolate pode ser produzido em diversas categorias e formulações, incluindo chocolates com maior ou menor concentração de cacau, chocolates ao leite, chocolates brancos e produtos de origem ou de características sensoriais específicas.
Quanto melhor a qualidade da amêndoa e do pós-colheita, maiores podem ser as possibilidades de diferenciação.
Quem Está no Centro da Cadeia Brasileira?
A cadeia brasileira do cacau não é formada por um pequeno grupo de grandes fazendas.
Existe forte participação de pequenos e médios produtores e da agricultura familiar, especialmente em importantes regiões produtoras da Bahia e do Pará.
Por isso, não seria tecnicamente correto criar um ranking das “maiores famílias produtoras” sem uma base nacional pública e auditável.
O que existe de maneira claramente identificável é um ecossistema formado por produtores, cooperativas, associações, fazendas especializadas, chocolateiros e grandes processadoras.
Na etapa industrial, empresas como Barry Callebaut, Cargill e ofi — antiga Olam — possuem presença na estrutura de processamento representada pela Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau, a AIPC.
A entidade reúne parte importante da indústria processadora instalada no país.
Na produção, diferentes fazendas e marcas de origem ganharam reconhecimento pela qualidade de suas amêndoas e chocolates, especialmente na Bahia e no Pará.
É justamente essa diversidade que diferencia a cadeia brasileira.
O Brasil Produz Cacau – e Também Importa
Esse é um dos aspectos mais interessantes da economia brasileira do cacau.
- O país é grande produtor.
- Possui indústria processadora.
- Produz chocolate.
- Exporta cacau e derivados.
- Mas também importa amêndoas.
Em 2024, segundo dados divulgados pelo Ministério de Portos e Aeroportos, o Brasil importou aproximadamente 26,5 mil toneladas de amêndoas de cacau.
Somente entre janeiro e março de 2025, as importações alcançaram 28,9 mil toneladas.
Parte relevante dessas amêndoas veio da Costa do Marfim e entrou pelo Porto de Ilhéus, na Bahia.
A explicação está na própria estrutura industrial brasileira.
Existe capacidade de processamento que precisa ser abastecida continuamente.
Isso cria uma situação econômica singular: um país produtor de cacau pode, simultaneamente, precisar importar matéria-prima.
Do Brasil para o Mundo
Em 2024, os portos brasileiros movimentaram aproximadamente 51 mil toneladas de cacau e derivados destinados à exportação.
Entre os mercados de destino estavam Argentina, Marrocos, Estados Unidos e Holanda.
A Bahia respondeu por mais de 90% da origem da produção exportada naquele levantamento.
Os derivados de cacau e chocolates também possuem sua própria logística internacional, com destaque para a utilização do Porto de Santos.
Isso mostra que a cadeia não termina na fazenda.
- Ela atravessa rodovias.
- Portos.
- Indústrias.
- Moageiras.
- Fabricantes de chocolate.
- E chega ao consumidor internacional.
O Valor Está Cada Vez Mais na Origem
O mercado mundial do cacau passou a prestar mais atenção à rastreabilidade, sustentabilidade e procedência da matéria-prima.
Isso tende a aumentar a importância de saber exatamente onde o cacau foi produzido.
Qual fazenda?
Qual região?
Qual sistema produtivo?
Qual material genético?
Como ocorreu a fermentação?
Como ocorreu a secagem?
Quais práticas ambientais foram adotadas?
A origem deixa de ser apenas endereço.
Transforma-se em atributo econômico.
Cacau É Cultura Perene — e Isso Muda a Decisão Sobre a Terra
Existe uma diferença estrutural entre analisar uma área destinada a grãos e uma propriedade destinada a culturas perenes.
Soja e milho são implantados novamente a cada ciclo.
O cacaueiro permanece.
Isso significa que erros de implantação podem permanecer durante anos.
Escolha inadequada de solo.
Problemas de drenagem.
Deficiência hídrica.
Genética incompatível.
Espaçamento inadequado.
Infraestrutura insuficiente.
Projeto de irrigação mal dimensionado.
Tudo isso pode comprometer um investimento de longo prazo.
É por isso que, no cacau, a análise territorial precisa anteceder o plantio.
Cacau Exige Capital, Tempo e Conhecimento
A cultura também possui uma característica financeira importante.
O investimento começa antes de a lavoura atingir plena produção.
É necessário preparar a área, implantar mudas, estruturar sombreamento quando aplicável, manejar plantas, controlar doenças e pragas, realizar adubação e, em determinados projetos, instalar irrigação e infraestrutura.
Depois vem o tempo.
O produtor precisa atravessar a fase de formação do pomar até alcançar níveis economicamente relevantes de produção.
Isso exige capital.
E exige planejamento.
Em sistemas irrigados e tecnificados, o investimento pode ser ainda mais elevado.
Em contrapartida, quando genética, ambiente, manejo, produtividade, qualidade e mercado estão alinhados, o cacau pode se transformar em uma cultura de elevado valor por hectare.
2026: Mais Cacau, Mas um Mercado que Continua Complexo
Os dados mais recentes da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau mostram como essa cadeia precisa ser analisada com cautela.
No primeiro trimestre de 2026, o recebimento de cacau pela indústria alcançou aproximadamente 28,6 mil toneladas, crescimento de 61,1% em relação ao mesmo período de 2025.
Mas a moagem não apresentou reação equivalente.
A presidente-executiva da AIPC, Anna Paula Losi, chamou atenção para o fato de que o aumento da oferta não significa automaticamente crescimento proporcional da demanda industrial.
Essa diferença é importante.
Produzir mais é apenas uma parte da equação.
É preciso existir mercado.
O Novo Mapa do Cacau Brasileiro
Durante muito tempo, o mapa brasileiro do cacau parecia relativamente simples.
Sul da Bahia.
Depois, o Pará ganhou enorme protagonismo.
Agora, novos projetos aparecem em outras regiões.
Espírito Santo, Rondônia, áreas amazônicas e experiências irrigadas em ambientes de Cerrado e semiárido mostram que a geografia da cultura está se tornando mais diversa.
Mas expansão geográfica não significa que qualquer propriedade possa produzir cacau de maneira economicamente eficiente.
Essa é a diferença entre identificar uma tendência e compreender um ativo.
A Visão da AgroBrasil
Para a AgroBrasil Fazendas, o cacau representa uma demonstração clara de como o valor de uma propriedade rural não pode ser compreendido apenas pelo número de hectares.
No Sul da Bahia, uma área de Cabruca precisa ser analisada dentro de sua realidade produtiva, ambiental e histórica.
No Oeste baiano, um projeto irrigado exige outra leitura.
- Solo.
- Água.
- Energia.
- Infraestrutura.
- Genética.
- Logística.
- Investimento.
- Produtividade.
- Mercado.
- Segurança jurídica e ambiental.
Cada variável interfere na capacidade econômica do ativo.
A AgroBrasil atua na avaliação, diagnóstico e estruturação de propriedades rurais, trabalhando com ativos destinados à agricultura, pecuária e reflorestamento.
Com aproximadamente 106 mil hectares de propriedades avaliadas e diagnosticadas e participação na administração de aproximadamente 81 mil hectares de terras arrendadas no Cerrado brasileiro, a empresa trabalha a partir de uma premissa:
Não existe cultura de alto valor sem terra adequada.
E não existe terra adequada sem conhecimento territorial.
O cacau brasileiro talvez seja uma das melhores demonstrações dessa realidade.
Na Cabruca, floresta e produção dividem o mesmo território.
No Pará, a cultura cresce dentro de sua origem amazônica.
No Oeste da Bahia, irrigação e tecnologia começam a construir uma nova fronteira.
Três realidades.
Uma mesma cultura.
E uma pergunta que precisa anteceder qualquer investimento:
Esta terra possui condições reais para produzir cacau com produtividade, qualidade e rentabilidade ao longo das próximas décadas?
AgroBrasil Fazendas
CRECI Jurídico J-23766
Fazendo a diferença no Cerrado brasileiro.
Fontes Institucionais
- IBGE — Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
Produção Agrícola Municipal — Cacau. - MAPA / CEPLAC — Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira
Pesquisa, genética, sistemas produtivos, Cabruca e qualidade do cacau. - AIPC — Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau
Dados de recebimento, moagem e indústria processadora. - Ministério de Portos e Aeroportos
Fluxos de exportação e importação de cacau e derivados. - MDIC / Comex Stat
Comércio exterior brasileiro de cacau e derivados.


