Das primeiras sesmarias de Goiás à pecuária moderna do Cerrado
SÉRIE ESPECIAL — OS 50 PROTAGONISTAS DO AGRO
EDIÇÃO 011 DE 050 | AGROBRASIL FAZENDAS
Uma história que atravessa mais de 250 anos
Legenda: Para acompanhar a abertura e contextualizar a região onde a família se estabeleceu. Crédito ao Autor.
Vila Boa de Goiás — origem histórica
Muito antes de Goiás se consolidar como uma das principais potências agropecuárias brasileiras, uma família de origem portuguesa começava a construir sua trajetória nas terras do interior do país. Era o século XVIII. O território goiano vivia o ciclo da mineração, e a exploração do ouro atraía aventureiros, comerciantes e colonizadores. Foi nesse cenário que Manuel Cayado de Souza, considerado o patriarca da linhagem Caiado estabelecida em Goiás, decidiu investir na terra e nas atividades agropastoris. A decisão representava uma alternativa econômica à mineração e daria início a uma trajetória familiar que atravessaria gerações, transformações políticas e diferentes ciclos de desenvolvimento rural. Mais de dois séculos depois, descendentes dessa linhagem continuam ligados à pecuária, agora com operações que incorporam confinamento, gestão financeira, tecnologia e planejamento produtivo.
1. Manuel Cayado de Souza: o início de uma linhagem rural
Em 18 de junho de 1770, Manuel Cayado de Souza recebeu uma carta de sesmaria referente a terras próximas às Matas da Paciência, às margens do rio Uru, na região de Vila Boa de Goiás. A concessão compreendia meia légua em quadra e integra os primeiros registros da presença da família na estrutura fundiária goiana. Naquele período, o sistema de sesmarias constituía um dos instrumentos utilizados pela administração colonial para distribuir terras e estimular sua ocupação econômica. Manuel escolheu desenvolver atividades agrícolas e pecuárias em uma região cuja economia ainda estava fortemente associada à extração mineral. Essa escolha seria decisiva para a formação da tradição rural dos Caiado.
2. Brígida Ribeiro Coelho de Almeida e a formação da Fazenda Europa
Legenda: Fazenda Europa — patrimônio histórico
Crédito: acervo histórico
A história não pode ser contada apenas a partir do patriarca.
Em 20 de agosto de 1772, Manuel casou-se com Brígida Ribeiro Soares Almeida, também identificada em registros históricos com variantes de seu nome. Brígida pertencia a uma família vinculada à ocupação de terras na região. Seu pai, Manoel Coelho Almeida, havia requerido terras nas Matas da Paciência décadas antes. O casal estabeleceu-se na área que ficou conhecida como Fazenda Europa. Segundo pesquisa acadêmica da Universidade Federal de Goiás, a construção da fazenda teve início em 1774, e sua sede foi inaugurada em 12 de julho de 1776. A Fazenda Europa tornou-se um marco da história familiar, representando a fixação dos Caiado na economia agropastoril goiana. É importante observar que o estabelecimento dessa propriedade ocorreu dentro da estrutura social colonial, marcada pela escravidão, pela desigualdade e pela concentração de terras. Os registros históricos mencionam expressamente a existência de pessoas escravizadas nas atividades rurais daquele período.
3. Os primeiros descendentes nascidos em Goiás
Da união de Manuel e Brígida nasceram José Caiado de Souza e Antônio Coelho Caiado. Esses dois filhos deram continuidade à presença familiar em Goiás e originaram diferentes ramos da linhagem. José Caiado de Souza casou-se com Maria Gertrudes de Souza, integrando um tronco genealógico que posteriormente alcançaria destaque na vida econômica e política regional. Antônio Coelho Caiado casou-se com Rita de Almeida e Silva, e parte de seus descendentes estabeleceu-se em outras localidades goianas. A sucessão familiar, os casamentos e a transmissão de propriedades desempenharam papel relevante na formação das redes econômicas e sociais dos Caiado. Essa trajetória também demonstra como a história de uma propriedade rural pode ultrapassar a dimensão produtiva, envolvendo patrimônio, relações familiares e continuidade entre gerações.
4. O crescimento da pecuária em Goiás
Com o declínio relativo da mineração, a agricultura e a criação de animais passaram a assumir importância crescente na economia regional. As grandes distâncias dos centros consumidores, as limitações de transporte e as condições de ocupação do território influenciaram os sistemas produtivos. A pecuária extensiva encontrou espaço nesse contexto, utilizando grandes áreas de pastagens naturais e, posteriormente, áreas abertas para criação de rebanhos. Ao longo do século XIX, a expansão das atividades agropastoris ajudou a estruturar a economia de diferentes regiões de Goiás. A família Caiado participou desse processo como integrante das elites proprietárias rurais, acompanhando mudanças na organização territorial e econômica do estado.
5. Antônio José Caiado e a consolidação familiar
Nas gerações seguintes, nomes como Antônio José Caiado e Torquato Ramos Caiado passaram a ocupar posições relevantes na sociedade goiana. A participação de membros da família na política esteve associada ao peso econômico e social da propriedade rural na formação do estado. No final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, Goiás viveu disputas entre grupos familiares e elites agrárias pelo controle das instituições políticas. Entre os personagens desse período destaca-se Antônio Ramos Caiado, conhecido como Totó Caiado. Sua atuação é frequentemente estudada no contexto do coronelismo e da organização oligárquica da Primeira República. A influência dos Caiado, portanto, deve ser compreendida dentro de um processo histórico mais amplo, no qual a propriedade da terra, as alianças familiares e o poder político estavam profundamente relacionados.
6. Emival Caiado: a continuidade da atividade rural
Emival Ramos Caiado — século XX
Legenda: Há fotografia em seu registro biográfico oficial na Câmara dos Deputados. Consultar acervo da Câmara
No século XX, uma das figuras da linhagem foi Emival Ramos Caiado, nascido na Cidade de Goiás em 4 de maio de 1918. Filho de Antônio Ramos Caiado e Maria de Amorim Caiado, Emival formou-se em Direito e exerceu mandatos como deputado estadual, deputado federal e senador. Paralelamente à sua trajetória pública, manteve vínculos com a atividade pecuária. Segundo relato de seu neto Ângelo Caiado, a família possuía propriedades em regiões como Nova Crixás, Água Fria e Alvorada do Norte. Essas localidades ilustram a presença da família em diferentes áreas do território goiano e a continuidade de sua relação com a produção rural. Emival faleceu em Goiânia, em 7 de agosto de 2004.
7. A expansão das fazendas nas décadas de 1970 e 1980
Uma etapa importante da história recente foi a expansão das atividades agropecuárias conduzida pela geração seguinte. Segundo Ângelo Caiado, seu pai recebeu terras na década de 1970 e participou da abertura e estruturação de novas fazendas no final daquela década e no início dos anos 1980. Entre as propriedades mencionadas está a Fazenda Mata Serena. Seu desenvolvimento ocorreu em uma fase de expansão da fronteira agropecuária, quando áreas do Centro-Oeste passaram por transformações produtivas e de infraestrutura. Naquele período, a formação de pastagens e a implantação de estruturas rurais exigiam investimentos elevados e longos períodos de maturação. A história dessas propriedades acompanha a própria transformação econômica do Cerrado, que gradualmente passou a receber tecnologias agrícolas, investimentos logísticos e sistemas de produção mais intensivos.
8. A modernização da pecuária: de 2007 a 2013
Entre 2007 e 2008, a família promoveu uma reformulação em seu projeto pecuário, conforme relato de Ângelo Caiado. A atividade passou a incorporar maior atenção à recria, ao manejo intensivo e à rotação de pastagens. Também foram introduzidas áreas irrigadas e mudanças na organização operacional. A partir desse período, a pecuária deixou de depender exclusivamente da disponibilidade de grandes extensões de terra e passou a buscar maior eficiência por hectare. Entre 2009 e 2013, parte dos animais era encaminhada para estruturas terceirizadas de confinamento, conhecidas como boitéis. Essa experiência permitiu à família observar de perto os custos de alimentação, a terminação dos animais e as oportunidades de verticalização da atividade. Surgiu, então, o projeto de desenvolver um confinamento próprio.
9. A escolha estratégica de Luziânia e Cristalina
A localização do confinamento foi tratada como uma decisão econômica. Embora a Fazenda Mata Serena tenha sido considerada inicialmente, a análise logística apontou vantagens em outras regiões. A escolha recaiu sobre o eixo de Luziânia e Cristalina, em Goiás, devido à disponibilidade de grãos e à proximidade de unidades frigoríficas. A presença de produção agrícola regional representava um fator relevante para o abastecimento alimentar dos animais. Em operações de confinamento, os custos de alimentação e transporte possuem participação expressiva na estrutura de despesas. A escolha da localização, portanto, poderia influenciar diretamente a competitividade da atividade.
10. De 4 mil para 40 mil cabeças de capacidade
Em 2014, a família arrendou uma estrutura de confinamento com capacidade inicial para aproximadamente 4 mil cabeças. A operação foi ampliada posteriormente para 10 mil e, depois, 16 mil cabeças. Em 2019, foi adquirida uma nova área para a implantação de uma estrutura de maior porte. Segundo informações relatadas por Ângelo Caiado no podcast Agro em Debate, a unidade passou a contar com capacidade instalada para aproximadamente 40 mil cabeças. O empreendimento representa uma transformação expressiva em relação aos sistemas pecuários tradicionais associados às gerações anteriores. A operação moderna exige planejamento nutricional, controle sanitário, gestão de insumos, logística e acompanhamento permanente dos indicadores econômicos.
11. Ângelo Caiado: gestão e profissionalização

Legenda: Ângelo Caiado — pecuária contemporânea
Crédito: Fotografia da entrevista para representar a geração atual. Consultar entrevista e imagens
Ângelo Caiado representa uma geração de produtores que combina tradição familiar e formação profissional. Graduado em Direito e com MBA em Gestão de Agronegócios, ele atua na pecuária e na administração de operações de confinamento. Sua trajetória evidencia a crescente importância da gestão financeira na produção rural. Em sistemas intensivos, decisões relacionadas à compra de animais, custo da dieta, duração do ciclo produtivo, comercialização e capital de giro podem determinar o resultado econômico da operação. O produtor contemporâneo precisa acompanhar indicadores de produtividade e rentabilidade com a mesma atenção dedicada ao manejo dos animais. A experiência da família demonstra como a pecuária goiana incorporou práticas empresariais e sistemas de controle cada vez mais especializados.
12. A transformação do Cerrado brasileiro
A história dos Caiado também acompanha a transformação econômica de Goiás. Ao longo de diferentes gerações, o estado passou de uma economia rural com infraestrutura limitada para um dos principais centros brasileiros de produção agropecuária. O avanço da pesquisa agrícola, a correção dos solos, a mecanização e o desenvolvimento de cadeias de suprimentos ampliaram as possibilidades produtivas do Cerrado. A expansão dos sistemas de integração entre agricultura e pecuária também contribuiu para novas formas de utilização das propriedades rurais. Nesse cenário, a pecuária de corte passou a incorporar estratégias de intensificação, recuperação de pastagens e terminação em confinamento. O desafio atual não se limita ao aumento da produção: envolve eficiência econômica, responsabilidade ambiental, gestão dos recursos naturais e adaptação às exigências dos mercados.
13. O patrimônio rural e a sucessão entre gerações
Um dos aspectos mais relevantes da trajetória dos Caiado é a continuidade da relação familiar com a terra. Entretanto, a permanência de um sobrenome na atividade agropecuária não significa que todas as propriedades históricas tenham permanecido sob a mesma titularidade. Ao longo de mais de dois séculos, sucessões, casamentos, divisões patrimoniais, aquisições e reorganizações empresariais podem alterar profundamente a composição do patrimônio familiar. Por isso, não seria tecnicamente adequado atribuir à família uma área total de terras ou um número consolidado de fazendas sem levantamento documental específico. A história dos Caiado oferece, ainda assim, um exemplo relevante para compreender a importância da sucessão patrimonial e da profissionalização da administração rural.
14. O legado de uma família na história de Goiás
A trajetória da Família Caiado começa no período colonial, atravessa a expansão da pecuária, passa pelas transformações econômicas e políticas de Goiás e chega às operações modernas de confinamento. De Manuel Cayado de Souza a Ângelo Caiado, são diferentes gerações, contextos históricos e modelos de produção. A história reúne pioneirismo rural, formação patrimonial, participação na vida pública e modernização da atividade pecuária. Também revela contradições próprias de cada época, desde a estrutura escravista e fundiária colonial até os desafios contemporâneos de sustentabilidade e governança. Conhecer essa trajetória é compreender parte da formação econômica e social do interior brasileiro.
AgroBrasil Fazendas CRECI J-23766
Uma série editorial dedicada a preservar e apresentar histórias de famílias, produtores e empreendedores que participaram da construção do agronegócio brasileiro.
Nota editorial
Esta matéria reúne informações históricas e relatos públicos sobre diferentes gerações da Família Caiado. As referências à Fazenda Europa e às propriedades rurais posteriores não implicam continuidade de titularidade entre os séculos XVIII e XXI.
As informações operacionais do confinamento correspondem às capacidades e aos projetos descritos por Ângelo Caiado em entrevista pública, sem auditoria independente de seus indicadores.
As datas relativas ao falecimento de Manuel Cayado apresentam divergências entre publicações históricas e, por essa razão, não foram fixadas nesta matéria.


